Receita de Ano Novo
Para você ganhar um belíssimo Ano Novo, cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido),
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas,
nem parvamente acreditar que, por decreto da esperança,
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo, que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade ("Discurso de Primavera & Algumas Sombras" - 1977)
Escrito por Vera às 06h23 PM
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(...)_Estou saindo para comprar naan – respondeu ele do outro lado da porta. – Estava pensando se você... se você não queria vir comigo...
_Acho que prefiro continuar lendo – respondi, esfregando as têmporas. Nos últimos tempos, sempre que Hassan estava por perto, eu ficava com dor de cabeça.
_Está fazendo sol – disse ele.
_Estou vendo.
_Pode ser divertido dar um passeio.
_Vá você.
_Gostaria que viesse comigo – insistiu ele. E se calou. Algo esbarrou na porta, talvez a sua testa. _ Não sei o que foi que eu fiz, Amir agha. Queria que me dissesse. Não sei porque não brincamos mais juntos.
_ Você não fez nada, Hassan. Agora, vá embora.
_ Pode me dizer o que foi. Não vou fazer nunca mais.
Enterrei a cabeça no peito, apertando as têmporas com os joelhos como se fosse um torno.
_ Vou lhe dizer o que não quero que faça - disse-lhe então, com os olhos bem fechados.
_ Pode dizer.
_Quero que pare de me perturbar. Quero que vá embora – exclamei. Desejei que ele revidasse, que arrombasse a porta, que me dissesse poucas e boas. Assim, seria mais fácil; tudo ficaria melhor. Mas não fez nada disso e, quando abri a porta, minutos depois, ele já não estava ali. Desabei na cama, enfiei a cabeça debaixo do travesseiro, e chorei.
Depois disso, Hassan ficou circulando pelas beiradas da minha vida. (...)
Do livro “O caçador de pipas”, romance de Khaled Hosseini

Pipas & Cirrus (tipo de nuvem) em Itanhaém - SP
Depois de “Quando Nietzche chorou”, verdadeira epopéia para terminar sua leitura, mas que foi maravilhosa, lá isso foi (daria um tremendo post aqui), comecei a ler o livro cujo trecho destaquei acima. Mesmo ainda lido pela metade, concordo com o que tenho ouvido por ai, ser ele emocionante. A narrativa se passa em parte no Afeganistão, país cuja cultura, história, guerras e condições são às avessas daqui e, portanto nenhuma identificação deveria acontecer. No entanto, diferenças à parte, quando se fala de infância, amor, este de todas as formas, ou nas armadilhas da própria vida e aquelas que armamos também, culpa, medo e dor, ninguém fica indiferente, principalmente aqueles nascidos na terra brazilis. Não sei até onde essa história vai chegar, pois deste livro não sei ainda nem a metade, o fato é que ele me prendeu em suas páginas. Deve ser por causa daquele músculo chamado coração, o qual também tenho um, sede de amores, que às vezes explode sem pedir licença. Como no do caçador de pipas, mesmo aprisionado pelas grades da moral, da religião, da própria cultura, ele escapa à razão. Ele é a própria insensatez, sem autocrítica, sentimento usado, a própria redundância.
Escrito por Vera às 01h01 AM
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